Saturday, September 4

Mar do infinito


Ao meu querido amigo A.

Corres no rio selvagem

Com firmeza de domador.

Às margens confias

memórias

e o sabor

do mar sem sal.

O tempo transborda depressa,

de pressa transbordante,

com pressa dos segundos

que não sentiram o vento falar.

Mas este rio impiedoso,

embala o segredo do mundo

pois tem gravado o destino

de entregar,

com ternura,

esta amizade profunda,

ao Mar do infinito.

Friday, July 9

Aqui ficam as palavras
que recusaste aceitar:

Deixa-me voar
com asas tingidas
de dor
lutando perdidas
no infindável silêncio.


Tuesday, June 15

"Então, veio uma corrente mais forte que o fazia descer. O peixe tentou lutar contra ela com quantas forças tinha, à medida que via distanciarem-se as coisas da superfície. Talvez para sempre... Mas depois fechou os olhos, confiou e já sem medo deixou-se ir". Nuno Tovar de Lemos, s.j., in O Príncipe e a Lavadeira

Wednesday, March 31

Cassiopeia numa noite de luar

Na praia de estrelas choram
castelos de espuma
levados
pela doçura do mar d'outrora.
A brisa queima,
a cada segundo cortante,
a face perdida no areal.
Esperei que viesses,
domando o mar agreste,
na proa do barco alado
para me salvar.
Mas o barco não passou
deixando sombrias memórias
junto ao cais.
Restam pedaços de mim
levados pelo sopro
do olhar ingénuo cortante.
Ficarei para sempre
Cassiopeia numa noite de luar.

Monday, March 15

Quantas histórias ficaram por contar

ao meu querido avô

Quantas histórias ficaram por contar

e telas em branco,

à espera,

que lhes gravasses memórias.

Seguiste sem despedida

procurando a Eternidade.

A dor preenche o vazio

e o mar embala

lembranças

perdidas no areal.

Sussurra sábias palavras,

que encantam o triste viver.

Todos os dias esperei

ouvindo,

ao longe,

os passos do amanhã.

Mas hoje percebi

que não voltas,

a casa,

para me abraçar.

Agradeço-Lhe

o privilégio

de ter contigo aprendido

que a vida não acaba aqui.

Ficam lágrimas de saudade

gravadas no coração

que jamais esquecerei.

Thursday, March 11

Amor caecus est

Nunca mais te sentirei
frágil
de ternura
sussurrando ao coração.
Um grito surdo
guarda segredos na alma
tingida de dor profunda.
Devolve-me tempo
e pedaços de mim
que dançam,
perdidos,
Na prisão do teu olhar.




Só o silêncio perdura

A tua presença consumiu-me a alma.

Os teus gestos conduziram-me ao abismo.

A luz dos teus olhos cegou-me.

A tua voz ensurdeceu o meu coração e os teus gestos lançaram sobre mim um véu de profunda tristeza.

A dureza das minhas palavras desvaneceu perante o silêncio mudo.

Que dizer? O silêncio tornava-se ensurdecedor lutando por um lugar inexistente.

Aos poucos lançaste-me num canto escuro e frio donde parecia irracional sair.

As setas da tua frieza (que outrora me magoaram) passaram a resvalar na minha carapaça de seda.

Sonhei demasiado tempo; calei-me demasiadas horas e não vive um único segundo.

A peça continua. Mas a história não guarda lugar para ti. Tornaste-te indiferente.